" Quando, naquela noite, nos metemos na cama, na choupana firmada sobre estacas, as histórias que o velho Tei Tetua nos contara a respeito de Tiki e da antiga pátria dos ilhéus além do mar, ainda me povoavam o espírito, acompanhadas do soturno bramido da ressaca distante."
Com pouco mais de vinte anos, o zoologo e geografo Thor Heyerdahl começou a dar atenção a indagações que lhe sussurravam em noites quentes em sua primeira visita à Polinésia. Por quê os polinésios seriam uma raça de gente tão diferente do restante da Ásia? Ele havia ouvido a história de seu velho amigo Tei Tetua sobre o deus Tiki que veio do mar.
Então debruçou-se sobre livros, mapas, teorias e antigos relatos de lendas que ultrapassaram os tempos. E quando descobriu que o nome do deus-sol Inca Virakocha, era originalmente Kon-Tiki que significa Sol-Tiki; o entusiasmado Heyerdhal sentiu que os ventos poderiam soprá-lo na direção certa. Decidiu ele tentar provar que era possível, que parte do povo Inca poderia ter migrado da América para as ilhas Polinésias...começava então uma aventura.
O novato explorador conseguiu reunir uma estudada mas inexperiente tripulação de seis homens, contando consigo, e apresentou os planos e o roteiro da expedição no Explorers Club de Nova Iorque na década de 40. Os especialistas, historiadores e navegadores experientes tentaram demover o autor do que chamavam de "loucura", mas Thor e seus amigos foram adiante, rumando para a América em busca da original madeira de Balsa com que os antigos faziam suas jangadas...enfrentaram a selva, cortaram árvores, montaram sua balsa sem um único prego, cavilha ou cabo de arame. Nove grandes troncos de madeira de Balsa amarrados uns aos outros com cordas de cânhamo; sobre eles uma cobertura de esteiras de bambu. No meio da jangada uma pequena cabana também de bambu com folhas de bananeira serviria de abrigo e moradia. A Kon-Tiki estava pronta e era uma cópia fiel das antigas embarcações do Perú e Equador.
Cheia de provisões, água e livros embalados em caixas cobertas com piche a Kon-Tiki é lançada ao mar em Callao, num mês de abril. Para alcançar a ilha de Raroia 101 dias depois ao vislumbrar um horizonte azul.
"O primeiro pedido do chefe foi ver o bote que nos tinha trazido vivos à terra (...) agora podíamos ver perfeitamente os toros da Kon-Tiki e um dos nativos gritou: - ' Não é um bote, é um pae-pae.' Disse-nos o chefe que esses pae-pae já não existiam, mas que as pessoas mais idosas da povoação sabiam de antigas tradições a respeito deles."
O livro A Expedição Kon-Tiki é a magnífica narrativa de uma das grandes aventuras do século XX. Uma espécie de Diário de Bordo cheio de detalhes e surpresas que inspirou um sem fim de expedições na segunda metade do século passado, inclusive de navegadores como Amyr Klink que levou os mesmos 101 dias para vencer o Atlântico.
Uma obra histórica, empolgante e atual que nos envolve com os mistérios das civilizações antigas, com os detalhes do planejamento da viagem e as dificuldades para cruzar o maior oceano da Terra. Ao conseguir cruzar o Pacífico numa distância total de 8mil Km de Callao no Peru até o arquipélago das Tuamotu na Polinésia, Thor Heyerdhal e seus cinco companheiros provaram, acima de tudo, que a realidade sempre pode ser um ousado projeto de vida.
Simplesmente adorei ler o livro.
A Expedição Kon-Tiki, Thor Heyerdhal. José Olympio Ed.

excelente resenha
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