" Nunca fomos criaturas da terra, não de verdade. Faltam-nos guelras, sim, mas ficamos tão à vontade na água quanto fora dela, como as gaivotas, para não dizer como as focas ou os anfíbios, porque não temos a mesma elegância e leveza das algas dançarinas e dos cardumes que passam reluzentes e fugidios. Mas é só ver como nossas cidades brotaram da areia. Como plantamos bandeiras na linha da maré. As pessoas daquela cidade, seus olhos azuis, e os sons sibilantes e explosivos de sua fala se aninhavam, depois se espatifavam e então ciciavam sobre as rochas e as areias. Os homens se movimentavam ligeiros, vacilantes, ocupados; as mulheres, com uma elegância lenta e ondulante. Até mesmo os lagartos que rastejavam para cima e para baixo no tronco das palmeiras à beira-mar pareciam ter nascido na água, assim como cães e gatos, com suas costelas visíveis através do pelo, como se a forma mais antiga buscasse romper o cerco da pele, como se as escamas estivessem tentando retomar seu devido espaço entre membros e flancos. Como se todas as formas de vida na terra estivessem somente matando tempo antes de responder, em uníssono, a um sinal previamente combinado que os faria largar suas ferramentas e alimentos e alcançar de novo a água, mesmo que as novas formas lá do fundo fossem agora incompreensíveis e aterrorizantes para os que tinham acabado se acostumando a um chão que fica parado..."
Extraído do conto BATISFERAS, de Niall Griffiths
No livro HISTÓRIAS DO MAR, Coletânea de Novas Histórias do National Maritime Museum
Ed. Gaia
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